Disparada
Alguns aspectos chamam a atenção no vídeo abaixo:
Observe a postura dos militares espalhados em meio a multidão.
Veja que logo atrás de Jair Rodrigues, um dos músicos utiliza uma ossada como instrumento musical.
Atente para a reação da plateia quando o cantor diz: porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente
Procure pensar nos aspectos já analisados em sala de aula como a luta do Brasil para entrar na modernidade e numa possível dicotomia entre cidade e sertão ou também entre sertanejo e cavaleiro que marcam o processo de transformação do personagem da canção.
É sempre um desafio estabelecer uma interpretação sobre uma obra dessas, no final do texto coloco alguns links de outras interpretações possíveis para essa canção mas quero pontuar alguns aspectos que considero relevantes nessa canção que é bastante representativa do momento vivido pela sociedade brasileira nos anos 60 e 70 do século passado.
O primeiro detalhe a me chamar a atenção é o ritmo lento da primeira parte da canção, parece uma espécie de lamento sertanejo, há um misto de humildade e tristeza na fala do sertanejo representado na música que diz:
Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar
Eu venho lá do sertão, eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão e posso não lhe agradar
Aprendi a dizer não, ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo, a morte e o destino, tudo
Estava fora do lugar, eu vivo prá consertar
Observe que o locutor pede que o ouvinte se prepare, as notícias que ele trás não são boas, repare que ele enfatiza a distância dizendo que vem lá do sertão três vezes, como se fosse o sertão do sertão para trazer coisas que não vão agradar.
O historiador Gilmar Arruda no livro Cidades e Sertões aborda a dicotomia segundo a qual a cidade é sinônimo de modernidade e o sertão representa o atraso, levando em conta esse modelo é como se um sertanejo que em teoria vivia em "atraso" fosse a cidade ensinar aos "modernos" ou "esclarecidos" invertendo ou subvertendo a suposta ordem natural da sociedade.
A primeira informação, que na verdade sintetiza o restante da canção é que o locutor "aprendeu a dizer não" e a partir disso passou a ver as coisas de forma diferente, principalmente a vida e a morte.
Na boiada já fui boi, mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu
Após preparar o ouvinte, o autor passa a se apresentar utilizando ainda uma figura ligada ao ambiente rural que é a questão do gado, obviamente o autor não está tratando da questão de forma literal mas utilizando o gado como representação da população, observe que o personagem tem sua condição de gado transformada pela ação do patrão que o tira da condição de gado para assumir a condição de vaqueiro.
Essa nova forma de viver é marcada pela alteração e aceleração do ritmo da música, indicando que a vida de vaqueiro mudou a forma como o sujeito encarava as situações de sua própria existência.
Continua...
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